Por dentro do golpe das faturas da OpenAI: o abuso do SendGrid e o phishing por callback explicados
Os cibercriminosos nunca param, reinventando constantemente suas táticas para explorar a confiança, a familiaridade e o instinto humano. A INKY continua observando que os agentes maliciosos estão utilizando plataformas de e-mail na nuvem e engenharia social baseada em voz para contornar os controles de segurança. Um exemplo recente é uma campanha de phishing que enviou centenas de e-mails a partir de uma conta comprometida do SendGrid vinculada à OpenAI para emitir faturas fraudulentas.
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Um e-mail com o tema “fatura”, supostamente enviado pela OpenAI, chegou de noreply@tm.openai.com via SendGrid. Como a mensagem foi enviada por meio de uma conta legítima da OpenAI no SendGrid, ela passou pelas verificações de SPF, DKIM e DMARC para o domínio openai.com. A mensagem alegava que uma cobrança de assinatura no valor de US$ 763,99 havia sido confirmada e instava o destinatário a ligar para um número de suporte para contestá-la. A mensagem não continha links maliciosos nem anexos. Sua única chamada à ação era um número de telefone. Esse formato permite que o golpe passe despercebido pelos gateways de filtragem de URLs, ao mesmo tempo em que se aproveita da confiança que os usuários depositam em marcas conhecidas e em conversas telefônicas.

Fig. 1: O e-mail de phishing com tema de fatura## Uso indevido da infraestrutura da SendGrid
As plataformas legítimas de envio de e-mails se tornaram ferramentas poderosas para os autores de ameaças que buscam se misturar às comunicações comerciais normais.
O apelo da SendGrid aos invasores
O SendGrid é amplamente utilizado por empresas para enviar e-mails transacionais e de marketing em grande volume. Ele oferece alta taxa de entrega e recursos avançados, como rastreamento de cliques e análises. No entanto, cibercriminosos estão se aproveitando indevidamente de contas do SendGrid para lançar campanhas de phishing, se passando pelo próprio SendGrid e por outras marcas confiáveis. A promessa de uma taxa de entrega de 99% torna a plataforma atraente para os criminosos. Uma conta comprometida do SendGrid permite que eles enviem e-mails falsificados que passam pelas verificações SPF/DKIM e parecem legítimos para os destinatários.
Possível violação da conta da OpenAI no SendGrid
Os e-mails de phishing dessa campanha não apenas falsificavam o nome da OpenAI, como também foram enviados por meio de uma conta genuína do SendGrid configurada no domínio openai.com. As mensagens passaram nas verificações de SPF, DKIM e DMARC para o domínio openai.com e continham cabeçalhos específicos do SendGrid, indicando que o remetente tinha acesso autenticado ao locatário da OpenAI no SendGrid.
Existem várias formas plausíveis pelas quais os criminosos poderiam ter obtido esse acesso:
- Quebra em massa de senhas e apropriação de contas: a Twilio, empresa controladora da SendGrid, admitiu que muitas contas de clientes foram comprometidas e utilizadas indevidamente para o envio de spam. O site KrebsOnSecurity informou que um número excepcionalmente grande de contas de clientes da SendGrid teve suas senhas quebradas e vendidas a spammers, permitindo que criminosos enviassem campanhas de phishing e malware por meio de domínios confiáveis dos clientes. Uma vez que uma conta da SendGrid é invadida, os e-mails resultantes passam despercebidos por filtros de spam pouco sofisticados, pois os destinatários confiam na infraestrutura da SendGrid.
- Mercado clandestino de credenciais do SendGrid: os cibercriminosos comercializam ativamente o acesso a contas do SendGrid que foram invadidas. O diretor de segurança da Twilio reconheceu que a empresa havia observado um aumento no número de contas comprometidas e que a autenticação multifatorial (MFA) não era obrigatória. Pesquisadores observam que o mercado para essas contas é alimentado pela reutilização de senhas: os invasores têm como alvo usuários que reutilizam credenciais em diferentes sites e, em seguida, vendem dados de login válidos. Um vendedor, que atua sob o pseudônimo “Kromatix”, anunciou mais de 400 contas comprometidas do SendGrid, definindo os preços com base no volume mensal de e-mails que elas podiam enviar. Essas contas roubadas podem ser usadas para gerar chaves de API e enviar em massa e-mails de phishing com alta taxa de entrega.
- Phishing e roubo de credenciais: Os invasores podem realizar ataques de phishing diretamente contra usuários do SendGrid para roubar suas credenciais. Como os criminosos podem usar a conta comprometida para enviar e-mails autenticados, os domínios das vítimas tornam-se participantes involuntários de ataques futuros. Se um funcionário ou prestador de serviços da OpenAI reutilizou sua senha do SendGrid, ou se suas credenciais foram comprometidas em uma violação de segurança separada, os invasores podem acessar o painel do SendGrid e criar uma campanha fraudulenta de faturas.
- Autenticação multifatorial fraca ou inexistente: A direção da Twilio indicou que a autenticação multifatorial (MFA) era opcional para contas do SendGrid e que a empresa planejava torná-la obrigatória. Sem a MFA, invasores podem assumir o controle de contas simplesmente adivinhando ou obtendo senhas. A ausência de verificação adicional aumenta o risco de que domínios legítimos, como openai.com, sejam utilizados para phishing.
É importante ressaltar que não há nenhuma confirmação pública de que a própria OpenAI tenha sofrido uma violação. A presença do domínio openai.com nesses e-mails de phishing indica que os invasores tiveram acesso a algumas credenciais do SendGrid vinculadas à OpenAI. Ainda não se sabe se esse acesso resultou do roubo de credenciais, da reutilização de senhas, de um ataque de phishing contra um funcionário ou do comprometimento de um fornecedor terceirizado.
No entanto, a venda generalizada de contas do SendGrid invadidas e a incerteza sobre se as credenciais foram obtidas por phishing ou se o próprio SendGrid foi hackeado sugerem que o golpe das faturas da OpenAI provavelmente resultou da invasão de contas, e não de uma simples falsificação de identidade. As organizações que utilizam o SendGrid devem encarar esse incidente como um alerta para adotar a autenticação de duas etapas (MFA), alternar as chaves de API regularmente e monitorar padrões incomuns de envio.
Análise dos cabeçalhos do e-mail com a fatura da OpenAI
O e-mail malicioso foi enviado de noreply@tm.openai.com por meio do SendGrid. A análise do cabeçalho revelou vários saltos pela infraestrutura de e-mail da Microsoft antes de chegar ao destinatário. As principais observações incluem:
- Resultados da autenticação: A mensagem passou nas verificações de SPF, DKIM e DMARC, pois o domínio tm.openai.com autorizou o IP da SendGrid (159.183.120.121). Os invasores utilizam contas comprometidas da SendGrid para garantir essa conformidade.
- Cabeçalhos “Received”: Um salto apresenta o cabeçalho “Received:” de MjAyMTY3MDY (desconhecido) por geopod-ismtpd-15 (SG) com ID HTTP …, indicando que os servidores geopod-ismtpd da SendGrid geraram a mensagem. A presença de “geopod‑ismtpd” e “(desconhecido)” nos cabeçalhos “Received” é um indicador comum de que o e-mail se originou da SendGrid.
- Campos X‑SG: A mensagem inclui os cabeçalhos X‑SG‑EID e X‑SG‑ID, que são exclusivos do SendGrid. Eles indicam que a mensagem foi enviada por meio da API do SendGrid, e não por um cliente de e-mail pessoal.
- Assunto e corpo do e-mail: O assunto afirmava “Taxa de assinatura confirmada: US$ 763,99” e o corpo continha uma única chamada à ação: “Suporte +1 (701) 638‑0848”. Não foram incluídos links, de modo que os filtros de URL não puderam identificar domínios maliciosos. O corpo do e-mail utilizava a identidade visual da OpenAI e uma linguagem urgente para criar uma sensação de pânico e legitimidade.
A combinação entre a capacidade de entrega do SendGrid, o alinhamento criptográfico e a falsificação de identidade da marca torna difícil para os gateways de segurança de e-mail padrão bloquearem esses e-mails.

Fig. 2: Análise do cabeçalho do e-mail de phishing
Cadeia de ataque: Phishing/vishing por retorno de chamada
O phishing por retorno de chamada, também conhecido como “ataque orientado por telefone” (TOAD), é um golpe que começa com uma fatura falsa ou um aviso de assinatura. Esses e-mails costumam alegar ser cobranças de empresas conhecidas e incluem um número de telefone para o qual ligar caso a cobrança não seja autorizada. O objetivo é fazer com que a vítima ligue para o número, em vez de clicar em um link. Uma vez ao telefone, o invasor se faz passar por um representante do atendimento ao cliente, solicitando informações pessoais ou instruindo a vítima a instalar um software de suporte remoto. Como não há links ou anexos maliciosos, essas mensagens podem contornar os filtros tradicionais de e-mail.
Os golpes de “callback” se baseiam na urgência: o e-mail insta o destinatário a ligar para cancelar uma cobrança elevada, e o golpista então solicita informações pessoais ou acesso remoto. O phishing por “callback” induz os usuários a ligarem para um número fornecido. Em seguida, o golpista utiliza engenharia social para obter credenciais de login, dados financeiros ou acesso remoto. O método difere do phishing tradicional porque a conversa passa a ocorrer por meio de uma chamada de voz, o que torna mais difícil o monitoramento por parte das ferramentas de segurança.

Fig. 3: Mensagem de phishing solicitando retorno de chamada
Cadeia passo a passo no caso da fatura da OpenAI
- E-mail inicial: A vítima recebe uma mensagem no formato de fatura do endereço noreply@tm.openai.com, enviada via SendGrid. A mensagem alega que uma cobrança de alto valor (US$ 763,99) foi processada e fornece um número de suporte para contato. Como a mensagem passa pelas verificações de SPF, DKIM e DMARC, ela parece autêntica e consegue contornar os filtros de e-mail.
- Ligação telefônica: Acreditando que a cobrança é verdadeira, a vítima liga para o número de suporte. Um golpista se passando por um representante da OpenAI atende a ligação. Ele pode pedir o nome da vítima, o endereço de e-mail ou outros dados de identificação para “consultar a conta”.
- Assistência remota: O golpista alega que precisa estornar a cobrança ou emitir um reembolso e instrui a vítima a instalar um software de suporte remoto, o que lhe dá acesso ao dispositivo da vítima.
- Vulnerabilidade: Com o acesso remoto, o invasor pode coletar dados confidenciais (credenciais bancárias, números de identificação pessoal) ou orientar a vítima por meio de processos falsos de reembolso que resultam em prejuízos financeiros reais. As primeiras campanhas utilizavam essa técnica para instalar malware, concedendo acesso remoto e, às vezes, levando a ataques de ransomware. Os invasores também podem instruir a vítima a acessar sua conta bancária para “verificar” os fundos e, em seguida, transferir dinheiro sem que ela perceba.
- Ações pós-invasão: Os invasores podem permanecer na máquina da vítima, instalar malware adicional, roubar dados ou expandir a invasão para outros sistemas. Como foi a própria vítima quem iniciou a chamada, ela pode não perceber que ocorreu qualquer atividade maliciosa.
Consequências do phishing por retorno de chamada
O phishing por callback pode ter graves consequências. Uma vez concedido o acesso remoto, os invasores podem realizar:
- Roubo de identidade e fraude financeira: as ferramentas de suporte remoto permitem que criminosos visualizem e roubem informações bancárias, iniciem transferências eletrônicas ou solicitem empréstimos. A Netcraft observa que criminosos utilizaram contas comprometidas do SendGrid para lançar ataques de phishing se passando por diversas empresas, destacando a magnitude desse tipo de abuso. Após o estabelecimento do acesso remoto, os invasores podem manipular o painel financeiro da vítima e extrair dados.
- Instalação de malware e ransomware: as vítimas são induzidas a baixar trojans de acesso remoto, que são posteriormente utilizados para instalar ransomware. Os invasores também podem instalar keyloggers ou outros tipos de spyware.
- Compromisso da rede e movimentação lateral: Com acesso a um terminal, os criminosos podem se movimentar lateralmente dentro de uma organização, roubar dados comerciais ou enviar novos e-mails de phishing (phishing lateral).
Melhores práticas e recomendações
Para mitigar o risco de golpes de phishing por meio de callbacks que abusam do SendGrid:
- Verifique por meio dos canais oficiais: não ligue para números de telefone fornecidos em e-mails não solicitados. Se você receber uma fatura ou um aviso de assinatura que pareça suspeito, entre em contato diretamente com a empresa usando um número do site oficial dela ou do portal da sua conta.
- Nunca conceda acesso remoto a pessoas desconhecidas: empresas legítimas não solicitarão acesso remoto para efetuar reembolsos ou cancelar assinaturas. Nunca instale software de suporte remoto, a menos que você tenha iniciado uma solicitação de suporte com um provedor confiável.
- Educar os usuários: Treinar os funcionários para que saibam identificar golpes envolvendo faturas.
- Denuncie e isole: Se você suspeitar de uma tentativa de phishing por retorno de chamada, denuncie o e-mail à sua equipe de segurança e isole todos os dispositivos que tenham software de suporte remoto instalado. Monitore suas contas em busca de transações não autorizadas e altere as senhas.
- Proteja as contas do SendGrid: As organizações que utilizam o SendGrid devem habilitar a autenticação multifatorial, monitorar as atividades de envio e revogar quaisquer chaves de API comprometidas. A Netcraft alerta que criminosos utilizam contas comprometidas do SendGrid para enviar e-mails de phishing autenticados.
Considerações finais
O golpe da fatura da OpenAI demonstra como os invasores se valem de serviços legítimos de e-mail na nuvem e de engenharia social baseada em voz para contornar os controles de segurança. Ao enviar um e-mail com tema de fatura por meio do SendGrid, os criminosos garantiram que a mensagem passasse pelas verificações de SPF/DKIM/DMARC e parecesse confiável. A ausência de links maliciosos permitiu que o e-mail contornasse os filtros de URL, enquanto a chamada à ação urgente levou o destinatário a entrar em contato com um golpista, que então tentou obter acesso remoto.
O phishing por retorno de chamada faz parte de uma tendência mais ampla na qual os invasores se valem de plataformas confiáveis e ferramentas de suporte remoto como armas. A segurança avançada de e-mail, a vigilância, a educação dos usuários e a verificação rigorosa por meio de canais oficiais continuam sendo as defesas mais eficazes contra essa ameaça em constante evolução.